Este post era para existir há algum tempo, mas como tempo é dinheiro e cada centavo, ou melhor, cada minuto é precioso, acabei demorando para escrevê-lo. Antes tarde do que nunca, certo?
Hoje, não vou falar sobre o governo ou a mega campanha para a erradicação de rubéola ou sobre portabilidade de carências das operadoras, pois são temas que vocês – leitores – devem estar cansados de acompanhar.
Vou dedicar este espaço para um livro curioso que ainda não foi lançado no Brasil, mas certamente quando ocorrer será um objeto de consumo para todo o setor de Saúde. Trata-se do “Our Daily Meds — How the Pharmaceutical Companies Transformed Themselves into Slick Marketing Machines and Hooked the Nation on Prescription Drugs”. Em uma tradução para o português, o título seria “Os remédios nossos de cada dia: como as empresas farmacêuticas se transformaram em máquinas de marketing escorregadias e viciaram a nação em drogas prescritas”.
O título da obra já é mais do que polêmico. Porém, vale a pena contar um pouco da história deste livro, mesmo que seja apenas para instigá-los a leitura.
Uma ex-jornalista do The New York Times, especializada na cobertura da indústria farmacêutica, Melody Petersen, entrevistou o presidente da Novartis, Daniel Vasella. Uma de suas perguntas foi sobre como sua empresa conseguia criar os medicamentos de sucesso exigidos pelos consumidores. E a resposta do executivo foi: “Você cria um desejo”.
A jornalista critica a nova missão da indústria farmacêutica, que – segundo Melody – está fadada fundamentalmente a produzir pelo bem-estar e longevidade. Em uma resenha do portal Exame, chega-se a dizer que “os tempos quase românticos em que a indústria farmacêutica era movida por cientistas e médicos interessados em pesquisar a cura de doenças graves ficaram inexoravelmente para trás”.
No livro, a escritora aponta que em 2005, os americanos gastaram 250 bilhões de dólares em remédios vendidos sob prescrição médica, o valor é superior a gastos com fast food e gasolina, por exemplo.
Além disso, a jornalista conta a história do remédio “Detrol”, da farmacêutica Pharmacia – comprada pela Pfizer. O remédio surgiu para curar uma doença que não era bem difundida entre os norte-americanos, que foi batizada pelo fabricante de “bexiga hiperativa”.
Como a tal doença poderia ser confundida com incontinência, que já era conhecida como um processo natural do envelhecimento, a indústria organizou dois simpósios em Londres, um em 1997 e outro em 1999.
Li em uma resenha que nesses dois encontros, os médicos definiram os sintomas do novo mal (um deles é ir ao banheiro mais de oito vezes em 24 horas). Uma vez criada a doença, era hora de torná-la conhecida do grande público. Além do treinamento dado aos médicos, havia uma campanha publicitária que incluiu anúncios em revistas de circulação nacional e até a contratação da atriz Debbie Reynolds, protagonista do filme Dançando na Chuva.
De acordo com Melody, cerca de 25% do preço de um medicamento prescrito corresponde a gastos com marketing — a soma é maior que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, por exemplo.
O livro é definitivamente muito bem-vindo ao Brasil. É claro que como o lobby não é tão descarado no Brasil, como ocorre nos Estados Unidos, as farmacêuticas estão sofrendo um pouco com uma legislação mais rígida.
Recentemente, a Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip) divulgou que o setor investiu, em 2007, R$ 863 milhões em propaganda de medicamentos que não necessitam de prescrição. O valor representa um crescimento de 15% em relação a 2006.
Já para os medicamentos que precisam de prescrição, a Anvisa tem feito um trabalho passo-a-passo, sendo que a primeira etapa foi o lançamento do guia sobre propaganda de remédios, no qual existe um detalhamento das principais infrações sanitárias com anúncios de produtos farmacêuticos.
Patricia Santana - psantana@itmidia.com.br